“9 Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi avaliado, a quem certos filhos de Israel avaliaram, 10 e deram-nas pelo campo do oleiro, assim como me ordenou o Senhor.” (Mateus 27)
Este é, sem sombras de dúvidas, um dos trechos mais difíceis de entendermos no Novo Testamento. Isso porque, embora Mateus diga que seja Jeremias, a citação é, na realidade, de Zacarias:
“12 E eu lhes disse: Se parece bem aos vossos olhos, dai-me o que me é devido; e, se não, deixai-o. Pesaram, pois, por meu salário, trinta moedas de prata. 13 Ora o Senhor disse-me: Arroja isso ao oleiro, esse belo preço em que fui avaliado por eles. E tomei as trinta moedas de prata, e as arrojei ao oleiro na casa do Senhor.” (Zacarias 11)
Mas como explicar isso? Temos duas formas de entender este trecho:
1°: Acredita-se que seja um erro copista. O copista simplesmente colocou “Jeremias” sem querer. Esta tentativa de explicar parece coerente, visto que alguns manuscritos não tem o nome “Jeremias”, além de ser comum o erro na cópia de grandes livros. Outro ponto a destacar é que os nomes “Jeremias” e “Zacarias” são muito semelhantes no grego, dando uma outra hipótese de o copista, sem querer, ter confundido na hora de escrever. No entanto, a grande maioria dos códices (principalmente os mais antigos) está da forma como vemos hoje nas Bíblias.
2°: Esta é, para mim, a mais coerente. Naquela época era comum as pessoas citarem o profeta mais influente. Veja o uso do próprio Jesus:
“21 Replicou-lhes Jesus: Uma só obra fiz, e todos vós admirais por causa disto. 22 Moisés vos ordenou a circuncisão (não que fosse de Moisés, mas dos pais), e no sábado circuncidais um homem.” (João 7)
Jesus atribui a circuncisão a Moisés, e o próprio João declara que ela veio dos pais de Moisés, isto é, de Abraão. Esse trecho deixa claro que era um costume os judeus primitivos citarem o profeta mais influente, afinal, Moisés é sempre tido como sinônimo da Lei (Lc 16: 31, 24: 27), além de os cinco primeiros livros serem de sua autoria. Por outro lado, pelo fato de os destinatários do Evangelho de João não conhecerem esse costume, o apóstolo deixa logo claro que, na realidade, não foi Moisés. Ou seja, em relação à Lei, Moisés é mais influente que seus pais.
Outro trecho que comprova o que argumentamos é este:
“44 Depois lhe disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” (Lucas 24)
Acima, o termo “Salmos” é atribuído a todos os livros poéticos (Salmos, Cantares, Provérbios, etc.), e não apenas ao livro de Salmos. Isso, é claro, por ser mais influente e o PRIMEIRO dos poéticos.
Sobre Mateus 27, o livro de Jeremias é o PRIMEIRO dos profetas do Velho Testamento em muitos rolos antigos , representado todos os profetas (inclusive Zacarias) como o caso de Salmos, além de ser o mais influente como Moisés em João 7: 22.
Sobre ser Jeremias o primeiro livro profético do V.T., embora seja muitas vezes Isaías quem ocupe essa posição, uma passagem do Talmude (baba Bathra 14b) defende tal posição.
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